Ópera “Kseni – a estrangeira”, de Jocy de Oliveira
Num semestre que apresenta cinco estréias mundiais de óperas brasileiras, cabe à “Kseni – a estrangeira”, de Jocy de Oliveira, dar o toque avant-garde a esse especial momento da criação musical verde e amarela. A ópera estréia no Teatro Carlos Gomes, no Rio, dia 28 de setembro. Seguem-se mais duas récitas, dias 29 e 30, antes da temporada paulistana, no Sesc Pinheiros, dias 13, 14 e 15 de outubro.
Inspirada no mito grego da Medéia, que já rendeu a ópera de Cherubini, “Kseni – a estrangeira” nasceu de uma encomenda feita pelo Festival de Música Contemporânea de Dresden, “Dresdner Tage der Zeitgnosischen Musik”, em 2002. Em sua pesquisa, a compositora descobriu uma melodia medieval da região francesa do Languedoc sobre a Medéia que serviu de base para a obra. À época, Jocy compôs “Medea Ballade” e a dedicou à soprano alemã Sigune von Osten – figura ativa na música contemporânea de seu país.
Mais tarde, a compositora constatou que o mito grego sugeria uma obra maior, uma reflexão política sobre a rejeição ao direito de ser diferente. Um prêmio da Fundação italiana Bogliasco (2004) e um Fellowship Award da Fundação Gugenheim (2005) possibilitaram o término da obra, dividida em cinco segmentos: “Medeia Profecia”, “Revenge of Medea”, “Who cares if she cries”, “Nenhuma mulher civilizada faria isso” e “Medea Ballade.”
É Jocy quem comenta seu processo de composição e a criação de “Kseni – a estrangeira”: “Procuro refletir o mundo que está a minha volta e suas inquietações. Não posso fazer música do século XIX, mas uso seus elementos, afinal não há criação sem bagagem cultural. Minha obra não tem uma tônica porque isso seria me repetir. Ela está sempre em transformação,” diz a compositora.
A própria Sigune von Osten vem ao Brasil cantar a ópera que conta também com a soprano brasileira Gabriela Geluda, a atriz Marilena Ribas e o menino Henrique Tinoco no elenco. A música fica a cargo do Opera Ensemble Jocy de Oliveira, grupo criado pela compositora para apresentar suas obras e desenvolver pesquisas e novas linguagens. Instrumentos formais e étnicos se unem a elementos eletroacústicos e projeções visuais para dar vida à obra.
O incentivo ao novo e a reflexão política fazem parte da obra de Jocy de Oliveira. O pouco espaço reservado à produção contemporânea inquieta a compositora, que é categórica ao falar sobre o tema: “Num país pobre como o Brasil, não acredito que sejam necessárias produções mirabolantes e caríssimas de temas vistos várias vezes. Acho ridículo uma produção custar mais de R$ 500 mil em nosso país. O necessário é invenção e criatividade,” afirma Jocy.
Nascida no Paraná, Jocy de Oliveira é membro da Academia Brasileira
de Música. Também pianista, teve obras compostas especialmente para
ela por Claudio Santoro, Iannis Xenakis, Luciano Berio e John Cage.
Em 2007, será a compositora residente no Festival Internacional
de Inverno de Campos do Jordão.
Fonte: Portal Viva Musica
– www.vivamusica.com.br
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