Diário do Maestro
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Os arranjos de Sarau Brazil
Há algum tempo vinha me incomodando meu desconhecimento da música brasileira. Como é possível - pensei - que eu conhecesse mais as convenções de execução da música francesa do séc. XVIII do que nosso delicioso maxixe? De alguma maneira, nós brasileiros fomos educados para uma espécie de xenofobia invertida, na qual o que é importado, pelo fato de não ser brasileiro, já é considerado melhor... O que hoje sabemos nem sempre corresponder à verdade. Acredito que caminhamos para um ponto de equilíbrio entre o ufanismo alienado e a descrença.
Conseqüentemente, quanto surgiu a possibilidade da Orquestra de Câmara Paulista gravar um CD patrocinado pelo Grupo Lacan, o Sarau Brazil, não vi outra possibilidade que não a de apresentarmos música brasileira. E como o interesse da Orquestra foi de cunho mais musical que propriamente musicológico, selecionamos uma série de canções dos mais diversos gêneros, originalmente escritas para piano. Como diretor artístico e regente da OCP, tive a felicidade de descobrir novas sonoridades ao realizar sua transposição para orquestra de câmara.
Os hábitos seresteiros do mestre de capela real José Maurício Nunes Garcia (1767-1830) transparecem em muitos trechos de sua obra sacra. Na canção "Beijo a mão que me condena", optei por uma leitura diretamente conectada ao bel canto. Conforme relatos de época, a corte de D. João VI trouxe consigo uma grande quantidade de castrati italianos, naquele momento já em pleno ocaso nas corte européias, mas muito apreciados ainda pelos portugueses. Em terras brasileiras, sem dúvida hão de ter se dedicado ao ensino de sua tradição vocal às jovens mocinhas da corte. O castrato Fasciotti e sua irmã e discípula, Maria Teresa Fasciotti, representantes do bel canto rococó, eram os cantores mais apreciados pelos tradicionalistas e saudosos do tempo de D. João VI. No processo de orquestração, optei por criar uma linha original de contracanto na flauta e oboé, inexistente no original.
Em cada uma das quatro canções de nosso consagrado Carlos Gomes (1836-1896), realizei uma abordagem distinta. "Suspiro d' alma" e a famosíssima "Quem sabe?!..." foram realizadas dentro do universo virtuosístico das árias de Vincenzo Bellini (1801-1835) e Gaetano Donizetti (1797-1848), primeiras influências de Gomes. "Anália Ingrata" foi pensada como uma serenata e "Conselhos" com os trejeitos cômicos característicos do teatro de vaudeville.
Alberto Nepomuceno (1864-1920) comparece com três obras primas de artesania musical. Em "Cantigas", realizei uma orquestração diluída, de tons franceses, uma ambientação ao discurso da voz. Em "Medroso de amor", criei um ambiente ansioso no qual as linhas melódicas são fragmentadas pelas madeiras (flauta, oboé e fagote) sobre um continuo pulsar arfante das cordas. A densidade de "Trovas" se reflete na escrita brahmsniana das cordas aliado ao colorido debussyniano das madeiras.
De Francisco Braga (1868-1945) temos seu "Madrigal-Pavana", obra escrita para orquestra de cordas, com suas referências a um passado galante e dotada de uma harmonia moderna, característico de um neo-classicismo musical. Luciano Gallet (1893-1931) compilou diversas canções do folclore brasileiro, entre as quais "Morena, morena", a qual vestiu com uma harmonia diáfana, quem sabe influência de Darius Milhaud (1892-1974), que o colocou em contato com a música moderna francesa. E a "Velha Modinha" de Lorenzo Fernandez (1897-1948), originalmente escrita para piano, recebeu uma roupagem orquestral característica da escola nacionalista modernista.
Para as canções "A Mulata" e "Preta Minha", ambas de Xisto de Paula Bahia (1841-1894), meu referencial foi o teatro de revista e os grandes cantores populares da primeira metade do séc. XX, como Francisco Alves (1898- 1952), as irmãs Carmen (1909-1955) e Aurora Miranda (1915-2005), e Dalva de Oliveira (1917- 1972), com suas vozes bem colocadas e dicção peculiar, muito próxima do canto lírico.
O "Gondoleiro do amor" tem sua música atribuída a Salvador Fábregas (c.1820-1880) sobre poesia de Castro Alves (1847-1871). Nesta versão que encerra o disco, busquei uma ambientação veneziana, transformando esta modinha em uma barcarola na qual as vozes de Sandro Bodilon e Adriana Bernardes se enlaçam em um belíssimo dueto.
Branco Bernardes
branco.bernardes@orquestrapaulista.com.br
São Paulo, 12 de dezembro de 2006
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