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Diário do Maestro

Os arranjos de Sarau Brazil

Os Timbres da Orquestra
Bruce Mack, in memoriam

Bruce Mack, em primeiro plano, e a cantora Adriana Bernardes
Morreu no dia 9 de maio, vítima de infarto, aos 55 anos, Bruce Mack, nosso spalla da Orquestra de Câmara Paulista (OCP). Norte-americano, nascido em Washington, há muito Bruce adotara o Brasil como sua pátria. Amava esta terra, sua música e seu povo. E nós, por nosso lado, amávamos Bruce e sua música. Como músico, teve uma sólida formação musical. Veio ao Brasil, na década de 70 a convite de dois de meus mestres: Ayrton Pinto e Eleazar de Carvalho. Assumiu a função de líder dos segundos violinos da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, Ayrton era o spalla.


Bruce era um dos principais violinistas do país, com larga experiência em orquestras no Brasil e também nos Estados Unidos - além de uma temporada como spalla da Orquestra Nacional da Colômbia. Músico sensível e criativo, sempre sofreu com o ambiente autoritário e pouco artístico de nossas orquestras. Preferiu ser spalla da Orquestra de Câmara Paulista, um grupo menor, mas onde se sentia apreciado e livre para criar.

Muito mais do que o spalla perdido pela OCP, perdi - e agora falo em termos mais pessoais ainda - um grande amigo, hóspede e referência artística. Quando comecei meus estudos musicais, na década de 80 (século passado!), Bruce já era o Bruce: o mais charmoso dos violinistas negros vindos na reforma da OSESP. (Parênteses para os mais jovens: sim, a OSESP já existia antes da Sala São Paulo e também já teve sua renovação com salários mais altos e músicos estrangeiros...). Bruce era quase magro e usava bigode! Loucos anos 1970.

Veio com o Quarteto de Cordas Bridgetower. Bruce e Harriette G. Hurd eram os violinistas, Leon D. Neal tocava viola e Jerome Wright violoncelo no grupo formado em 1973. Vieram juntos ao Brasil, pois acreditavam que aqui teriam mais tempo para ensaiar o grupo. Nos anos 1980 fizeram uma turnê pelos EUA mas o grupo, composto exclusivamente por afro-americanos, se desfez quando Bruce decidiu voltar ao Brasil.

Azar dos americanos. Sorte nossa, em especial minha que, agora já violinista profissional, tocaria a seu lado em inúmeras oportunidades. Quando comecei a dar minhas braçadas no mundo da regência de orquestra, Bruce não estava em São Paulo. Em plena floresta, além de violinista, era o elemento diplomático nos conflitos entre russos e búlgaros na recém criada Amazonas Filarmônica.

Chegamos a nos rever em Belém quando lá fui tocar no Teatro da Paz. Uma coincidência espantosa! No mapa pode até parecer pertinho, mas Belém é muito distante de Manaus.

Eu o reencontrei novamente em São Paulo, final dos anos 1990. Havia voltado porque amava muito suas filhas Debbie e Najla - Rachel nasceria só neste século -- e não queria ficar longe delas. Não queria mais tocar em orquestras. Seu amor e respeito pela música faziam-no sofrer em demasia com o descaso, autoritarismo e incompetência tradicionalmente ligados a nossas sinfônicas. Convidei-o para ser o spalla de nossa recém-nascida Orquestra de Câmara Paulista. Ninguém mais teria sido melhor que Bruce Mack: ótimo músico, generoso, elegante. Sua presença foi um presente que nos foi dado por quase dez anos.

Para Bruce Mack, nossa gratidão e muitas saudades.
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