CD Curumim

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Patrocínio: Grupo Lacan

Curumim - Camargo Guarnieri

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Entrevista com Vera Silvia

Entrevista com Marion Verhaalen



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"CD será lançado em Outubro"
"Entrevista com Vera Sílvia"


Ao primeiro olhar, não se tem dúvida: é a casa de um músico. Ou mais: a casa de um gênio.

Atraem a atenção os quadros, fotografias e caricaturas. Um busto, com seus cerca de 40 centímetros de altura, é imponente e se destaca na sala bem decorada. Essa é a casa de Camargo Guarnieri.

Mas além de ser a casa do maestro Camargo Guarnieri, é a casa do marido Camargo Guarnieri, do pai Camargo Guarnieri. A filha do compositor - a também musicista Tânia, violinista na Itália - usa o citado busto para fazer referência a esse tom familiar do local. "A gente brincava de esconder coisas aqui no nariz", diz, apontando para as narinas do belo busto, e se remetendo a uma bela e saudosa infância.

Se é até óbvio dizer que gênios permanecem vivos por meio da grandiosidade de suas obras, não é tão esperado assim que seus pequenos gestos afetuosos também contribuam para a longevidade do mito. E histórias como essa, que revelam uma faceta familiar de Camargo Guarnieri, são contadas com muita afeição por Tânia e pela viúva do maestro, Vera Sílvia.

A memória de Camargo Guarnieri vem à tona em 2007, referenciada pelo centenário de nascimento do músico, e relembrada por projetos como Curumim - Camargo Guarnieri, que a Orquestra de Câmara Paulista, com patrocínio do Grupo Lacan, lançará ainda nesse semestre. E o legado familiar e afetuoso do maestro - testemunhado por poucos - é destacado por duas das pessoas que mais conviveram com Camargo Guarnieri.


Kirbo Comunicação: No cotidiano, como era a pessoa Camargo Guarnieri?

Vera Silvia: Uma pessoa de várias facetas. Artista, pai, marido... uma pessoa comum do dia-a-dia, que procurava não misturar seu lado artista e seu lado "família".

Tânia: Nunca tive a mínima noção do que era a imagem dele. Para mim ele era, e ainda é, o meu pai. Sempre foi "só" o meu pai, como todo mundo tem um pai. Ele nunca misturou as coisas - o que até me prejudicou, porque eu não tinha a mínima noção de como as pessoas me olhavam. Eu passava por arrogante. Toco músicas dele, acho geniais e aí pinta uma pontinha que diz: "nossa, esse cara é meu pai!". É estranho, não consigo descrever direito. Meu filho [também músico, aficcionado por Jazz], agora, está pagando a conta de ser neto dele. Digo pra ele: isso é o que eu passei a vida inteira, você vai ter que se acostumar. Dou a ele uma preparação que não tive. Ele se machuca menos do que eu me machucava.


KC: Esse ato de "não misturar as coisas" era feito de maneira deliberada ou algo mais espontâneo?

T: Espontâneo. Ele era assim mesmo, um cara bem simples. Por ser muito exigente consigo próprio, acho que ele nunca se sentiu um gênio. Era alguém que sempre buscava algo a mais - não deitava em cima das conquistas.

V: Quando alguém chegava em casa e dizia "oh, o maestro!", ele sempre respondia "não sou maestro, aqui não tem nenhuma orquestra!".


KC: Por mais que ele mantivesse essa distinção entre o lado profissional e o familiar, a música estava presente em seus atos corriqueiros, em seu dia-a-dia?

V: Não dá para separar a música da figura dele.

T: Uma criança vai atrás de livros se ela vê os pais sempre lendo, tendo esse envolvimento. Minha mãe trabalha com livros - e então, livros e música sempre estiveram presentes em casa. Nos bolsos dele sempre havia alguns papeizinhos com esboços de algo que ele escrevia. Às vezes era papel higiênico, guardanapo... Isso era o dia-a-dia nosso!

V: Ele não costumava escrever música em casa. Mas de repente, se estivesse muito embalado, fazia algo mais. Para ele, a composição era um exercício. Todo dia ele compunha alguma coisa - mesmo que fosse para depois jogar fora. Para ele, compor era como estudar um instrumento. Tem que se fazer todo dia para não "perder a mão".


KC: Há alguma passagem curiosa relacionada com isso, com esses momentos fulminantes de inspiração?

V: Costumeiramente ele acordava à noite para escrever. Tinha uma idéia e logo ia rascunhar o que havia pensado. Uma vez, ele havia prometido a uns amigos, que comemorariam 45 anos de casados, que escreveria para eles uma missa. A missa acabaria com um Agnus Dei. Foi escrevendo e não gostando. Fazia e jogava fora. Fez uns seis ou sete assim. E um dia, no meio da madrugada, ele se levantou para escrever. Nossa sala tinha uma mesa bem grande, com um quadro em uma das cabeceiras. Ele foi para a sala e demorou, demorou, demorou... até que de repente ouvi um barulhão. Saí correndo para ver o que tinha acontecido e gritei: "Guarnieri, o que aconteceu?". Ele respondeu: "não sei, acordei com esse barulho!". Era o quadro que tinha caído sobre a mesa. E o Agnus Dei que ele escreveu até dormir foi o que o satisfez e acabou entrando naquela missa.


KC: Atualmente, muito se fala no poder do esforço, do trabalho duro. Bernardo Rezende, técnico de vôlei campeão mundial e olímpico, costuma dizer que para ele o talento é algo secundário ou até mesmo terciário - sendo menos importante que a disciplina e o trabalho duro. Guarnieri seria partidário dessa linha de raciocínio?

V: Acho que não. Ele é de outra geração. Ele sempre dizia que qualquer pessoa é capaz de fazer qualquer coisa; mas, para ser um músico, é preciso nascer músico. Ele sempre dizia que havia os "pianeiros" e os pianistas, os "violineiros" e os violinistas.


KC: Conte um pouco sobre a história de amor de vocês dois.

V: Nos conhecemos na casa de um amigo em comum. Eu tinha 18 anos na época, e havia uma casa que minha família sempre freqüentava. O Guarnieri - que já era famoso, tinha 50 anos - apareceu lá e ficou muito amigo do meu pai. Uma amizade instantânea. E então ele passou a freqüentar muito a minha casa. Meu pai era muito festeiro - muito apaixonado por música, tanto que, quando morreu, a crítica especializada em música erudita publicou um artigo sobre ele. Em 1959, ele teve um infarto fulminante e morreu. O Guarnieri continuou freqüentando minha casa e resolveu tomar conta de mim - e tomou conta de mim pro resto da vida! Meu pai morreu em 1959, e eu e Guarnieri nos casamos em 1961.


KC: A diferença de idade entre vocês chegou a gerar dificuldades?

V: Foi um grande problema na família. Um escarcéu do tamanho de um bonde! Dois tios nunca mais falaram comigo. O Guarnieri havia sido casado duas vezes, tinha um filho mais velho que eu.


KC: E como foi o lado poético da conquista, da corte dele para com a senhora?

V: Ele escrevia para mim, fazia improvisos, dedicava obras. Uma das obras mais feliz dele – feliz no sentido de alegre, de alto-astral – foi escrita como um presente de casamento. É alegre, e ao mesmo tempo, “melada”.

T: Era um cara amoroso, um cara "meloso". Um pai que assinava "com todo amor, do seu pai". Dizia para os filhos "eu te amo", o que é bem raro. Chorava à toa... Na primeira e última nota que toquei na vida ele estava chorando. Mesmo com ele regendo - toquei com ele como maestro algumas vezes e ele chorava no palco!


KC: Como vocês definem o senso de humor dele?

T: Ele conseguia achar comicidade nas coisas. Contava algumas histórias de rolar de rir. Uma muito engraçada é de quando ele foi acompanhar uma cantora em um recital. Ela era muito gorda e, na hora de entrar no palco, sua saia ficou presa na cinta e ela acabou com tudo à mostra! Meu pai ficou tentando abaixar o vestido dela, ela nervosa achando que ele estava abusando, e a cantora só foi perceber no final da apresentação.

V: Outra boa aconteceu quando ele foi para Moscou. Ele foi chamado para ser julgado no concurso de piano de Tchaikowsky, o mais importante do mundo. Chegou em Moscou - em pleno comunismo - e foi levado para um hotel chique. Estava cansado da viagem e teve a idéia de relaxar na banheira. Acontece que a banheira tinha um formato diferente, com placas de mármore, que faziam ângulos até o final. Ele - que sempre foi gordo - encheu de água e entrou na banheira. Na hora que sentou, ouviu um barulho estranho... Era a sucção com o fundo da banheira que o deixou preso! A única saída era esticar o pé ao máximo para tentar puxar o ralo e liberar a água. Ele conseguiu, mas foi um sacrifício, já que a banheira era grande.

T: Ele tirava muito sarro dele próprio. Às vezes, o senso de humor dele assustava as pessoas. Ele tirava sarro de alguém e esperava uma resposta à altura, uma resposta inteligente. Era isso que ele queria. Mas as pessoas ficavam inibidas e, freqüentemente, se ofendiam. A inteligência e o senso de humor dele fizeram com que nós ficássemos muito exigentes e ficássemos de saco cheio das pessoas com facilidade!


KC: Guarnieri, quando ficava bravo com uma pessoa, jogava a seguinte praga: "vá ser músico no Brasil!". Ele fazia essas reclamações no cotidiano? E apesar das brincadeiras, ele tinha fé no país, gostava de ser brasileiro?

V: Sim, reclamava. Especialmente no fim da vida, quando ficou mais amargo. Ele tinha consciência de que era um grande compositor. Reclamava da música dele ser pouco divulgada, do pouco reconhecimento. Isso o deixava meio magoado.

T: A inversão de valores o irritava. Por exemplo, ver um jogador de futebol ganhar mais que um músico. Ele ficava possesso com essas coisas.

V: Mas ele era profundamente brasileiro. Tinha amor pelo Brasil. Para ilustrar: em 1942, ele foi para os EUA, a convite do departamento de estado. Foi primeiro para receber um prêmio internacional e depois ficou mais seis meses. Apresentou concerto de suas obras, com participação de grandes artistas, dirigiu a Orquestra de Boston, uma das principais do mundo. E nesse período a música dele fez um grande sucesso por lá. Chamou a atenção de Hollywood. Representantes de duas grandes companhias cinematográficas o convidaram para permanecer por lá e fazer músicas para elas. Ele recusou. Ofereceram somas altíssimas para ele - chegaram a fazer propostas do estilo "diga o quanto o senhor quer". E ele não aceitou.

T: Desde que ele saiu do Brasil pela primeira vez, a idéia dele era a seguinte: ver o que funcionava melhor lá fora - e as cartas que ele escrevia demonstram bem isso - e tentar trazer essas melhorias para cá. Não ver e pensar "aqui é melhor, eu fico por aqui. Se lá [Brasil] não funciona, vamos tentar melhorar". Sempre foi muito idealista.

V: Quando ele foi estudar na França, voltou de lá no meio de seu período de estudos, por conta da guerra. E quando chegou ao Brasil, como sua volta não estava prevista, ele tinha perdido o emprego. Estava sem alunos. Um compositor da dimensão dele estava sem ter como ganhar a vida. Então, um conservatório do Panamá ofereceu uma verdadeira fortuna para ele ir para lá, mas ele não foi. Preferiu ficar no Brasil. Cada vez que a gente viajava para fora, para alguma apresentação, aproveitávamos para ficar um tempo a mais para passearmos por lá. E toda vez, quando chegava a semana de retornarmos, ele já começava a dizer: "estou com uma saudade do Brasil...". E sempre acabávamos voltando antes.


KC: Guarnieri morreu em 1993, quando a tecnologia que vivemos hoje já mostrava suas caras. Como era a relação dele com esse novo mundo?

V: Ele nunca chegou a se interessar por computadores. Mas algo que ele chegou a conhecer, e se interessou muito, foi o CD. Ele achava o máximo! Principalmente porque ele era um grande destruidor de discos. Conseguia arranhar discos inteiros... para ele, o braço descer automaticamente era algo que não existia.

T: Quando saíram aqueles walkmen com fita... aquilo era a vida pra ele! Ele gostava de zanzar pela casa ouvindo música. A tecnologia, para ele, era mais uma forma de obter conforto. Ele não tinha essas "coisas de velho", de recusar a tecnologia.

V: Era engraçado. Quando viajávamos, por exemplo, para os EUA, ele fazia questão de entrar naquelas lojas gigantes para procurar coisas novas de cozinha. Aparelhinho para isso, aparelhinho para aquilo... ele adorava.

T: Muita porcaria!

V: Porcaria mesmo. Ele gostava de cacarecos.


KC: Tânia, você nunca cogitou seguir a carreira de compositora?

T: Deus me livre! Nunca passou perto do meu universo mental, de jeito nenhum.


KC: Mesmo com a influência do seu pai?

T: Acho que principalmente por causa dessa influência. Conseguir curtir e entender o que ele escreveu já está bom demais.


KC: Guarnieri morreu com quase 86 anos. Teve uma vida muito intensa e, como vocês disseram, não era adepto da atividade física. Como vocês explicam a longevidade dele, o fato de ter vivido tanto tempo?

T: Ele adorava viver.

V: E sempre dizia: "adoro viver. Sei que tenho que morrer, mas vou morrer contrariado!".

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